domingo, 22 de janeiro de 2017

MARVIM - III - MARSHMALLOWS E ACEROLAS



Uma semana, exatamente uma semana de seu nascimento, e isso faz do céu um pouco mais limpo comparado a outros dias, as nuvens tímidas balançam como se fossem desgrudar do tapete azul discreto que as envolvem, em leves movimentos a provocar a ternura dos mais sensitivos, como nosso viajor, Marvim sente que este dia será um bom dia, um dia diferente de todos que vem passando nessa longa e tênue semana desde seu doloroso parto.

A amiga mais próxima do Colibri o convida para ver um filme, e numa ansiosa empolgação os dois conversam pelas ondas neurais que permeiam tal tecnologia oriunda de seu espécime, com um nome bem sugestivo: "whatsapp", no decorrer das mensagens, Marvim comunica que está sem passagem em seu cartão e que precisa ir recarrega-lo na mercearia próxima a casa de ambos, ela diz o mesmo, a dupla sabia que poderiam ali se encontrar e foi o que veio a acontecer próximo a porta de entrada, e no mesmo momento uma bala de canhão acerta bem nas entranhas de Marvim, surpreendido por aquela figura humana assustada e encolhida em seus medos, esguio e com aquela mesma blusa preta marcada de abóbora e algodão nos braços, as madeixas despenteadas e despretensiosas, sua coluna como de costume levemente curvada para frente, e sua face branca como a nuvem que pela manhã balançava no céu anil.

Marvim sente aquela tontura que sempre sentirá ao estar próximo de um ser tão caro, suas pernas bambeiam e ele fica tontinho sem saber o que fazer, seu olhar dá um giro 360° e numa fração de segundos decide entrar na mercearia, com os olhos em posição periférica fitando atentamente o Colibri, esbelto como havia de estar, rodopiando seu dedo indicador em seus parafusos negros, Marvim debulha-se em questão de segundos.



Os três cruzam por quatro ou cinco vezes dentro da mercearia, e é chegada a hora de nosso viajor encarar os fatos como são, e tomar uma difícil decisão, encara-lo ou fugir? E ele acaba decidindo por não aborda-los em tal situação, Marvim receia que seu grande amor possa agir de forma "agressiva", martelando ainda mais os caquinhos que sobrara de seu coração, ele foca no orgulho ferido, direciona seu olhar ao lado oposto de seu amado, que está a menos de um metro de distância, engole seco sua saliva, que como navalha desce à partir sua garganta em dois, enquanto passa suas compras no caixa, seu pensamento continha ali, o Colibri a observar atentamente os rótulos da sessão de desodorantes, os olhos de Marvim outra vez viram cascatas, enquanto ecoa por de trás da voz de Colibri a voz da moça do caixa:

- moço, vai colocar CPF? Moço, moço?

Marvim digita seus onze números de registro pausadamente, ao mesmo que se desculpa pela desatenção. E com a sua sacola de jeans, cuidadosamente fabricada por sua habilidosa mãe, carregada sobre seu ombro direito, ele se desloca em pesados passos para fora da mercearia, molhando o chão com suas duas cascatas ele se joga como uma casca de banana no banco de alvenaria ali presente, pensando: o que eu poderia ter dito, qual seria a reação do Colibri, porque sua amiga havia de trazer tamanho peso para seu dia?

Mais uma vez surpreendido, ao seu lado surge um anjo, carregado de marshmallows coloridos e perfumados, outros azedos e picantes, Marvim não exita, agarra o anjo com os braços e desata a chorar, os dois juntos, Marvim e Erika, petrificados ali, naquele canto de alvenaria, e após muitos minutos aos soluços, nosso viajor vai aos poucos desapegando do colo materno de sua amiga que surgira ali parece que com o propósito de lhe ajudar, de lhe dar afago, a atenção de que tanto precisará naquele momento, os dois juntos vão em direção a casa que hospeda Marvim, Erika gentilmente diz:

- Estou com tempo amigo, vou lhe acompanhar até seu canto.

Marvim desprende-se num leve sorriso e os dois seguem caminho, e no caminho, escondido naquela silenciosa travessa, um carregado e pequenino pé de acerolas, faz com que as duas jaboticabas de Marvim brilhem, e ele diz:

- ontem mesmo, em minha solidão, transcrevi um de meus escritos sobre acerolas, colibris e um passeio sobre um trilho de trem.

Dessas fizeram suco, o suco de vinte e poucas e um limão para realçar o azedo das pequeninas vermelhas, assim como faz a mãe de Erika, segundo a própria.




Novas amizades: O poeta Noah que vaga pelas praças da cidade, proclamando-as.
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