domingo, 22 de janeiro de 2017

MARVIM - II - SEGUE



Acampamento montado, banho tomado, Marvim debruça sua cabeça sobre os braços levemente inclinados, olhando o céu escuro da noite forrado de estrelas, num relance volta seu olhar para suas pernas repousadas dentro de sua barraca, onde nesse instante comporta tudo de que precisa, Marvim não aguenta segurar mais e num profundo suspiro, cascatas de cura vem mais uma vez a tona, contudo, agora em outro tom, algo próximo do mais decidido, numa correnteza determinante no fluxo de uma maior incerteza, limpando as lagrimas ele alcança um de seus três livros que o acompanham nessa jornada, (mais adiante falaremos um pouco mais sobre eles) para nele as cascatas cessarem, noite afora, pois-se a devorar, página por página das cartas entre dois poetas, grifando em azul as partes que mais lhe cabiam naquele momento, dormir é uma missão difícil quando se está sozinho no mundo, eu diria que a primeira noite é como um renascimento, os olhos permanecem vidrados acompanhando a luz dos automóveis que passam na rodovia sem deixar sombra, assim como em sua lembrança vem o dia em que aquele, do qual havia de entregar seu coração, passou a noite nessa mesma barraca, dele não tinha mais cheiro, os pés gelam e a perna arrepia, seu sexo adormecido dá as caras, e no estalar do tempo quando se deu por si, do roxo o gozo toma conta de toda atmosfera solitária predominante em sua barraca vermelha, Marvim sente-se leve, como se as horas anteriores de dor não existissem mais por um instante, lhe vem a sensação de estar no lugar exato na hora exata, e enquanto cai uma chuva estrondorosa, o viajor repousa em seu leito. 
A chuva não para e permanece cada vez mais forte, o céu começa a tomar a cor de um azul tímido, Marvim desperta, mas para ele é como se nem tivesse adormecido, embrulha suas roupas molhadas, arruma suas coisas e resolve sair para ver o dia, a chuva trás um tom de preguiça mas Marvim não desanima, vai até o banheiro da parada joga uma água na cara e ali alguém sorri pra ele, uma moça feliz, com um semblante de boa gente, sombrancelha tatuada e cabelos loiros tingidos, sem julgamentos, começa a falar sem parar, e Marvim ouve atentamente, neste momento ele quer apenas ouvir, Andreia diz que sua irmã também viaja assim sem pretensão de onde chegar, fala de seus filhos e de vários relacionamentos que não deram certo e dos que deram também, assim que Marvim começa a contar os motivos pelos quais o levaram a esta jornada, mas não se aprofundando tanto, queria apenas ouvi-la, precisava ouvir, e depois de horas de conversa, Andreia volta-se para Marvim e diz:



- Menino, escute o que eu vou lhe dizer, tenho 41 anos, posso lhe dar algum conselho, volte para sua casa, tome um chá, esqueça tudo, deixe de lado, volta-se para você, e saiba que nessa vida as únicas pessoas que estarão sempre de braços abertos para lhe receber são seu pai e sua mãe, amigo nenhum fica para sempre, é fácil eu lhe dizer, mas não vale a pena você ficar assim, por faculdade alguma, por pessoa alguma, por ninguém, faça o que tiver de fazer, POR VOCÊ, somente por você!

E num longo abraço, como se ali Marvim acabara de encontrar e trocar conversa com uma amiga de longa data, os dois se despedem. Andreia e seu sorriso maduro ficarão guardados em sua memória, logo que não houve espaço para fotografias, nem necessidade naquele momento. Em seguida ele pega carona numa van branca carregada de velhinhos, de volta para sua cidade para dali, traçar um novo trajeto ...

Gratidão Andreia 💚

Novas amizades: 7 pessoas, incluindo um garoto que também estava na van junto de sua mãe, e que ficou muito interessado em saber de onde Marvim era, e o porquê de seu cabelo azul esquisito.
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